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Especulação e a Economia do séc. XXI

É interessante observar a evolução da Economia e como esta se tem alterado no século XXI. Uma das mais elementares bases da economia é a Lei da Oferta e da Procura. Esta lei, decorrente da observação empírica, afirma que quando a oferta é muita e a procura é pouca os preços baixam, sendo que, no necessário oposto em que a procura é muita e a oferta é pouca, os preços sobem. Esta relação causal é fácil de se perceber e tem aliás ditado os princípios básicos de funcionamento dos mercados livres.

Recentemente com a evolução das novas tecnologias e com a globalização, os mercados produtivos reais, isto é, que traduzem a compra e venda de produtos e serviços entre indivíduos, tornaram-se virtuais. Este sector financeiro, que na sua forma mais básica pode ser visto como uma transacção entre dois indivíduos, sendo que um disponibiliza o produto e o outro paga por esse produto, tornou-se um sistema universal em que qualquer pessoa, interessada ou não nos produtos, pode transaccionar.

Esta mudança teve e tem diversas repercussões e é fácil perceber porquê. Exemplifiquemos com a aquisição dos alimentos. Se dantes essa aquisição era acertada directamente com os produtores, hoje ela é mediada por um mercado que para além de comercializar o objecto de permuta, disponibiliza também folhas de papel “equivalentes” (do ponto de vista financeiro) que também são comercializáveis.

Ora, a criação destes novos mercados financeiros criou oportunidade de negócio para todos aqueles que acreditam que podem prevêr a evolução da lei da oferta e da procura — os especuladores. Acreditando que o petróleo será escasso dentro de 13 anos, estes compram-no, causando eles próprios a alteração da procura, que aumenta. Por conseguinte, o aumento da procura vai, segundo a Lei da Oferta e da Procura, aumentar os preços.

Também é verdade que a procura tem aumentado pelo crescimento dos países emergentes, como a China, Índia, Brasil, entre outros. Embora verdade, é interessante verificar que, a título de exemplo, o investimento nos mercados finançeiros das commodities por parte de fundos e pensões aumentou 1900% desde Março do ano passado. Por muito que os países em desenvolvimento tenham crescido, dificilmente conseguiram alavancar tanto o preço dos mercados.

É, pois, importante admitir e validar que os mercados financeiros têm sido efectivamente sujeitos à especulação. Essa especulação desvirtua qualquer sistema político-económico. O próprio capitalismo, que tem por base uma economia de mercado onde os bens são transaccionados livremente segundo a Lei supra-enunciada, fica sujeita ao mundo da fantasia dos especuladores, alterando ou mesmo abolindo o princípio trivial de funcionamento do mercado.

Esta especulação tem também pontos positivos — alertar para o inegável facto que os recursos são limitados. Este poderá ser, portanto, o motto para a regeneração do mercado. Criam-se necessidades — aquela de não depender do petróleo, por exemplo — e surgem oportunidades de fornecer alternativas. As soluções não são imediatas e haverão consequências no período intermédio.

Não surgiu ainda uma solução óptima para esta nova economia do séc. XXI, onde os mercados finançeiros criam um mundo de fantasia disconexo com a economia real. Há quem sugira promover as transacções ponto a ponto. Esta opção dificilmente será válida. Portugal, por exemplo, não tem petróleo e, como tal, não depende apenas de si. Outra alternativa é limitar os preços dos produtores. No entanto, esta possibilidade acarreta, como aliás é demonstrável por países que já a implementaram, a eventualidade de uma falência por parte dos produtores.

Será interessante, do ponto de vista académico e histórico, observar como será torneado este problema ou, alternativamente, como a sociedade se adaptará a ele. Infelizmente, enquanto os especuladores juntam fortunas com produtos de primeira necessidade, os mais pobres, aqueles que mais sentem as consequências do aumento dos preços, serão os primeiros a sucumbir. Esta nova economia desvirtua a noção básica de produção, valor e dinheiro. Os parasitas da sociedade, de uma forma ou de outra, conseguem dar a volta, amealhando a sua fortuna à custa do trabalho dos outros — os que efectivamente produzem e os que efectivamente consomem.


2 Responses to “Especulação e a Economia do séc. XXI”

  1. Luis Mateus
    Published at June 15th, 2008 at 2:25 am

    O capitalismo está longe de ser perfeito, mas de todos os sistemas imperfeitos, é o melhor!
    Penso sinceramente que a resposta está na mentalidade das pessoas, na ética.
    Face a desigualdades, é necessária a solidariedade social, ou seja, solidariedade por parte da própria sociedade além do Estado.
    Por isso é que, apesar de não ser crente, me identifico com valores cristãos. E é essa a matriz europeia, de bases judaico-cristãs. Negligênciá-las, ou pior, renegá-las é perder a própria identidade.
    O mercado deve ser livre e o Estado um observador atento, regulador, mas nunca jogador. Espero que a analogia não seja confusa. ;)

  2. mlopes
    Published at June 15th, 2008 at 2:53 am

    Luís, é precisamente essa a minha visão ideológica!