O que me assusta no comunismo…
- Published June 5th, 2008 in Política
Hoje um amigo meu questionou-me o que me assusta a mim, enquanto indivíduo, no comunismo e, em menor medida, no socialismo.
A resposta foi fruto de um impulso lacerante e assustador: que aquilo que sou e faço iria depender de todos, menos de mim.




Na democracia, aquilo que fazes depende da maioria.
Aquilo que um indivíduo faz e aquilo que ele alcança numa sociedade livre e aberta depende apenas dele e somente dele. A dependência de decisões arbitrárias e de moralidade duvidosa tomadas por uma qualquer maioria é precisamente aquilo que me assusta. A culpa não é da democracia — é de esta permitir que existam individuos que se sobreponham aos outros com base em princípios que interferem com a liberdade, consciência e razão individual.
Estás redondamente enganado. O comunismo não deve ter implicações nas liberdades individuais. O que te fazes, só a ti te diz respeito. O que é de todos, a TODOS diz respeito. É esta última frase que demarca o comunismo como modelo social do futuro.
Miguel,
É precisamente essa difusa definição do “o que é de todos” que me assusta.
Para mim o que é de todos é o ar que respiramos. Para os comunistas tudo é de todos. Sendo tudo de todos, deixamos de ser livres enquanto indivíduos, estando então sujeitos e limitados àquilo que alguém define como “interesse público”.
Só é possível garantir que somos verdadeiramente livres e não dependemos de ninguém se necessidades básicas como a propriedade privada e o direito à propriedade forem violáveis e intransponíveis — premissa que é a anti-tese do comunismo.
Não, obrigado.
E já agora, eu não me referi ao que eu faço ou deixo de fazer. Referi-me ao que posso ou não posso fazer estar dependente da tal noção de “bem público”. Uma noção tudo menos objectiva.
Já por várias vezes notei o teu medo do comunismo. Não só teu, claro. A discussão que tivemos sobre o 25 de Abril/Novembro é reflexo disso mesmo: do medo do comunismo, o medo da esquerda.
O que não percebo é a tua posição tão longe da realidade.
Focas o quão terrível é o comunismo como se estivesses à beira de uma ditadura comunista e nem te apercebes que estás muito mais perto de um regime de de direita do que de esquerda.
Basta dares uma olhada por essa blogosfera fora: comentários e até posts, não de fanáticos, mas de pessoas que colocam essa hipótese de forma muito séria e racional.
Quem ler os teus posts há-de pensar que estamos a caminhar para um regime comunista… Mas na realidade estamos a caminhar no sentido oposto. Por isso te digo, não te preocupes com o comunismo, preocupa-te sim, é com o lado oposto.
Outra coisa, os livros são para ser lidos e reflectidos num contexto temporal e espacial.
Paula,
O meu medo do comunismo não está dependente do regime actual em Portugal.
Em segundo lugar, não é verdade o que dizes. O comunismo é revolucionário e reaccionário e não um processo normal evolutivo. O comunismo nasce abruptamente, da mesma forma que o nacional-socialismo nasceu com Hitler ou o comunismo bolchevique surgiu na URSS.
Por fim, devo confessar que os 20% do PCP e do BE me assustam. E muito.Tal e qual me assustariam 20% do PNR.
Ouve, eu só te disse que tens mais probabilidade de um regime totalitário de direita vingar do que um do esquerda. Sim, os regimes podem surgir abruptamente, mas só vingam se houver pessoas que o confirmem.
Às vezes pergunto-me porque continuo a comentar o que dizes: achas mesmo que a postura do PNR e o extremismo que tem se compara ao BE ou ao PCP?
Chamar o BE ou PCP de extrema esquerda é de bradar aos céus… ou rir à gargalhada.
Sim Paula, fôlgo em saber que o PCP te consegue enganar — tanto que acreditas que não é extrema-esquerda.
É precisamente disso que tenho medo — a aparente moderação dos partidos de extrema-esquerda, que é tudo menos verdadeira.
Ao menos com o PNR sabemos perfeitamente o que eles valem e os valores por detrás.
Vai ler uns livros de história, principalmente dos grandes inspiradores comunistas como Lenine, Kant, Marx, Engels, Mao ou Fidel Castro e depois diz-me o quanto é que o discurso deles diferia do actual discurso do PCP (e, em menor medida, do BE). Espera, eu respondo. Nada. Até chegarem ao poder…
És cómico. Pões o PCP à esquerda do BE, comparas o posiciconamento do PCP à esquerda com o posicionamento do PNR à direita… Nem quero saber onde colocas o PCTP/MRPP ou o POUS!
Achas, sozinho, que quem acha que o PCP menos à esquerda que o PNR à direita está “a ser enganado”. Eu cá acho que quem anda aqui enganado és tu. Mas - como com qualquer radicalista, julgo que discutir isso contigo não valerá de nada: estás certo de teres a verdade, de estares certo, porque sim: e mais do que isso sabes que ninguém te demoverá. Serve. Chega-me. Mas permite-me a assertividade que usas naquilo que vou dizer: *estás enganado*.
Marcos,
Permite-me corrigir-te. Não estou certo porque estou certo. Estou certo fruto do trabalho da razão, que ainda gosto de usar na concepção da minha argumentação. E não fruto de um qualquer ímpeto que me fez acordar e não gostar do PCP.
E o PCP sempre foi um partido de extrema-esquerda. Não significa, contudo, que não haja ainda pior. Sim, já agora, permite-me o uso desse termo, nos direitos que me consagra a liberdade de expressão. Ou será que a teria com o comunismo? China, URSS, Coreia do Norte, Cuba entre outros dizem-me que não.
Ah, mas espera.. esses não são países comunistas, pois não? Devo *estar enganado*.
estranho teres esse pensamento. como que uma perda de individualidade face à ideia comunista, penso o contrário.
e falaste de leitura de alguns livros ali à paula, sugiro que leias algo de Jean-Paul Sartre. sim, pode-se muito bem dizer que ele era comunista. ele era.
mas a leitura de obras de um dos simbolos do existencialismo poderá dar-te toda uma outra ideia, que não a que tens de momento sobre isto.
adrelina,
Eu sempre estive e estou aberto a ler tudo o que de interesse, principalmente aqueles que vão contra a minha ideologia, como forma de a questionar.
A primeira vez que senti um distanciamento profundo ao comunismo foi precisamente quando li o manifesto comunista, versão abreviada, do Engel.
pode ser tudo uma questão de compreensão/interpretação.
adrelina,
Claro. Aliás, esse é o motto da troca de comentários — a compreensão/interpretação/percepção daquilo que é o PCP.
Pessoalmente, acredito que percebi perfeitamente e interpretei correctamente o manifesto marxista-leninista e discordo categoricamente dele.
Ou será que existe alguma mensagem subliminar do mesmo que eu não tenha compreendido?