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Portugal a virar à esquerda?

É curiosa a sondagem que indica que o BE e o PCP juntos reúnem quase 20% do eleitorado. Ainda mais curioso é tentar perceber as causas.

Depois do 25 de Abril começaram a surgir círculos sociais que dependiam inteiramente do Estado. Mobilizaram-se tanto que, contrariamente aos seus concidadãos, garantiram que nunca fossem despedidos. Asseguraram muitas outras regalias, nomeadamente os horários de trabalho privilegiados, progressão automática na carreira, etc..

O PS de Sócrates, mais a centro que o PCP e o BE, apercebeu-se das desigualdades que existem entre um cidadão comum e os funcionários públicos, iniciando não uma cruzada contra estes cidadões (como a retórica demagoga dos partidos de extrema esquerda insiste em repetir), mas antes uma rectificação daquelas que eram verdadeiras injustiças sociais.

Naturalmente que 700 mil pessoas fazem a diferença e não irão querer perder as regalias. Apercebendo-se que o PS é afinal um partido realista e não apenas idealista, pendem agora para quem lhes dê a garantia que irão continuar com as suas regalias — o BE e o PCP. São estes os partidos que melhor podem assegurar os tachos no Estado e os empregos para a vida. Os benefícios que nunca se perdem e as regalias que são indexadas a tudo menos ao mérito.

Esperemos que antes de virar à esquerda, o país acorde e decida mas é trabalhar, e trabalhar bem.


16 Responses to “Portugal a virar à esquerda?”

  1. Mind Booster Noori
    Published at May 19th, 2008 at 7:48 pm

    Já pensaste que as pessoas podem estar descontentes com o desempenho dos sucessivos mandatos PSD/PS, e que vejam nos partidos mais à esquerda uma alternativa?

  2. Dextro
    Published at May 19th, 2008 at 7:53 pm

    Ou será que o facto do PS de socrates estar mais a centro do que se passava anteriormente no PS fez essas pessoas procurarem partidos que são realmente de esquerda?

    E ou muito me engano ou 700 mil não são 20% dos eleitores, pior: contrariamente ao que se costuma dizer existe funcionarios publicos que trabalham e que compreendem que tinham demasiadas regalias mas acho que é perfeitamente justo uma pessoa querer ter a possibilidade de ser promovida (sim porque como já disse existem bons funcionarios publicos, não é um mito)…

  3. João
    Published at May 19th, 2008 at 11:20 pm

    Talvez as pessoas estejam preocupadas com o aumento real do desemprego e da precariedade, das desigualdades sociais, da porcaria que andam a fazer ao serviço nacional de saúde… Ou até talvez quem sabe do código do trabalho que está para ser aprovado… Obviamente preocupações de preguiçosos, gente que não quer trabalhar e não interessa nada a ninguém. Assim como o milhão de pessoas no limiar da pobreza. Pessoas indignadas com o aumento dos combustíveis (pasme-se!), pessoas revoltadas com as politicas ambientais (leia-se PINs!)… Eu continuava mas não vale a pena, sempre ouvi dizer que o maior cego é o que não quer ver…

  4. mlopes
    Published at May 19th, 2008 at 11:47 pm

    Mind Booster Noori,

    A actuação política do PS tem sido pautada por trazer realismo à política portuguesa — não temos o petróleo da Noruega ou os diamantes do Canadá para manter regalias sem que haja algo em troca. Aqui a moeda de troca chama-se trabalho e não apenas trabalho. Trabalho bem feito.

    Os grandes “prejudicados” pela política do PS (prejudicados é um termo desajustado, mas tudo bem) são precisamente aqueles que mais regalias têm e grande parte sem saberem como. Ora, estes podiam 1) virar à esquerda; 2) virar à direita. Mas à direita sabem que vão ter de trabalhar mais, porque vão perder ainda mais regalias… o que fazer então? Parece-me óbvio.

    Dextro,

    700 mil não está muito longe do eleitorado activo e não-abstencionista.

    Quanto à promoção é óbvio que as pessoas devem ser promovidas. Mas a promoção deve ser sempre indexada ao valor que esta trás, pois é essa a única medida realista que traduz a relação de um indivíduo para com a sociedade — o quão bem ele desempenha o seu trabalho. Progressão porque está lá há muito tempo.. não me parece que faça sentido.

    João,

    Eu também estou indignado com isso tudo. Abastecia o carro com 30€, agora é com 65€. Também gostava de políticas ambientais mais activas e adorava ter um SNS como o do Canadá, Noruega ou Inglaterra. E que nunca fosse preciso despedir ninguém porque as pessoas davam todas o seu máximo..

    Mas isso é tudo muito bonito e muito idealista.. e como é que a esquerda pretende resolver isso tudo? Diminuir a precariedade, o aumento do desemprego, o preço dos combustíveis, a saúde e ainda sobrando tempo para cuidar do ambiente? Vai descobrir uns poços de petróleo? Ou vamos voltar à nacionalização das nossas terras e sermos todos obrigados a cultivá-las? Ou será aumentado o salário mínimo para 1000 euros que irá tudo melhorar? Ou limitando artificialmente o preço do combustível, ficando o Estado de pagar (a isso e mais à saúde e educação e…)?

    Perguntas que ficam por responder…

  5. dextro
    Published at May 20th, 2008 at 9:59 am

    Olha que eu já escolhi as minhas palavras com cuidado, não falei nada sobre progressão por tempo. É que caso não tenhas reparado há muitos anos que existem progressões por mérito (avaliado via exames o que, concordo, poderá não ser a melhor forma de o avaliar) e que estão congelados desde os governos do Durão Barroso… Com as progressões automaticas também não concordo devo dizer.

    E já agora nem todos os funcionarios publicos ganham bem, eu até conheço vários que ganham muito pouco especialmente tendo em linha de conta que podem ser destacados com a mesma preocupação com que os professores o são. Tanto estão hoje em Lisboa como amanhã podem estar em Torres Vedras…

  6. mlopes
    Published at May 20th, 2008 at 10:03 am

    dextro,

    Nunca ninguém disse que os funcionários públicos ganhavam bem. Ou mal. Ganham aquilo que o Estado decide que eles ganhem. E ganha dependendo do dinheiro que o Estado tem, que aliás não é muito.

    Mas têm condições que mais ninguém tem — sair às 5, progressões automáticas (isso foi finalmente congelado, mas tinham até há bem pouco tempo), salário que nunca pode baixar, não podem ser despedidos, etc..

    E ainda se queixam? Então que se despeçam e vão para o privado… Quando o Estado começar a perder trabalhadores veremos se não sobe os salários. Só que ninguém quer largar a mama..

  7. Mind Booster Noori
    Published at May 20th, 2008 at 10:51 am

    Mário:

    A tua opinião é que “os grandes prejudicados pela política do PS são os que mais regalias têm”. A minha opinião é diferente. Isso não faz de mim “cidadão cheio de regalias, que não se vira à direita por saber que vai ter de trabalhar mais e vai ter menos regalias”. Parece-me que a visão que apresentas neste post é tão redutora que se torna irreal. Se as pessoas estão a fugir do PS é porque estão descontentes do seu desempenho. Os motivos? Sim, pode ser esse que falas, mas esse será apenas um de muitos outros, que ouço muito mais e que me parecem muito mais pertinentes. Para as pessoas que estão a “fugir” do PS, há duas opções: virar à esquerda ou à direita. Concerteza haverão pessoas em ambos os grupos. Mais uma vez, parece-me descabido pensar que “quem vira à direita é porque quer um Portugal melhor”, e “quem vira à esquerda está é preocupado em não perder injustas regalias”. Um exemplo que te dei de uma razão que me parecerá mover mais pessoas é o facto do povo Português estar na generalidade descontente com o governo, seja ele PS ou PSD. Havendo alternativas, talvez arrisquem nelas. Mas há mais, como por exemplo o actual estado do PSD, que não há-de inspirar muita confiança e estabilidade a muitos Portugueses. E haverão mais motivos.

    Em suma: acredito que hajam casos que até se enquadrem naquilo que descreves. Não acredito é que a percentagem desses casos, dentro das pessoas que estão a inclinar-se à esquerda, seja relevante.

  8. mlopes
    Published at May 20th, 2008 at 10:56 am

    Marcos,

    O post é redutor naturalmente. Há outros motivos. Mas este é clarividente.

    Toda a gente sabe o que é que a esquerda oferece — o melhor serviço nacional de saúde, menor taxa de desemprego, menor precariedade no trabalho, mais segurança no trabalho, menos impostos..

    Oferece isto tudo. Agora resta saber como. Isso *ninguém* da esquerda me soube alguma vez explicar.

  9. Luis Miguel Silva
    Published at May 20th, 2008 at 11:34 am

    Em suma, é muito natural esta tendência (e nem li os outros comentários embora tenha a certeza que digam o mesmo).

    Quando um país vai mal, as pessoas viram-se para o Comunismo.

    Quando há fortuna, as pessoas viram-se para a direita e para o capitalismo.

    Está mais que provado na História que um mal comum trás popularidade e une as pessoas.

    Vejam o caso da China, Rússia ou Alemanha em tempos do Hitler: os “líderes” usaram “um mal comum contra o “”povo”" para unirem as massas a favor deles”…

    Em tempos do “assim assim” viramos-nos para os centros (leia-se, PS e PSD cá pelo burgo).

    É perfeitamente normal os partidos de esquerda estarem a ganhar simpatizantes tal como é perfeitamente normal que um dia se volte à direita extrema…

    Há mesmo quem vá votando na esquerda (nesta altura) para tentar provocar alguma instabilidade no poleiro do centro…para eles começarem a reparar que o povo começa a ficar demasiado fulo com a situação e que lhes vão abanar o poleiro.

    Eu só gostava de uma coisa: que estivéssemos todos bem, sem pobreza (mesmo que hajam diferenças entre os mais ricos e os menos ricos…porque isso tem de haver sempre).

    Esperemos que não haja uma revolução por cá porque não quero ser apanhado no meio…

    Ainda há 2 dias atrás estava a falar com um amigo de 54 anos que me contou como foi estar na tropa pós 25 de Abril (mesmo após a pseudo revolução)…

    Que rebaldaria de país…

  10. Miguel
    Published at May 20th, 2008 at 11:43 am

    Belo post, Mário.

    Finalmente alguém que percebe que não basta estalar os dedos para que o dinheiro caia do céu e os políticos possam acabar com o desemprego e aumentar os salários mínimos para o dobro…

    Este governo finalmente começa a tomar medidas realistas, e começa a ser contestado porque, tudo bem, podem tomar medidas mas a mexer no bolso dos outros. A partir do momento em que entram no meu bolso então vou para a rua protestar…

  11. Miguel Caetano
    Published at May 20th, 2008 at 12:12 pm

    Sim, realmente o Bloco de Esquerda controla muitas câmaras municipais pelo país fora para poder oferecer algum tipo de regalias aos funcionários públicos. Comparar o Bloco de Esquerda ao PCP faz tanto sentido como comparar o PSD ao PS. Pensamento de treta, enfim… De quem não tem mais nada para fazer senão dizer mal dos funcionários públicos. Criticam-se os outros de não apresentarem as soluções, mas não se apresentam soluções… Até parece que Portugal está a convergir com o resto da União Europeia. Tsk, tsk…

  12. João
    Published at May 20th, 2008 at 3:02 pm

    Obviamente ninguém sério pode garantir resolver todos este problemas. A grande questão é que se propõem a resolve-los e dizem como. Olha um como: taxar as transacções em bolsa e por as entidades financeiras a pagar impostos. Olha outro como: abrir as portas à imigração. Outro: acabar com a liberalização dos combustíveis.
    E agora é a minha vez de mandar a farpa: a esquerda não diz como vai resolver os problemas mas é interessante (não) ler o programa que a Dra. Manuela Ferreira Leite propõe para a liderança do PSD…

  13. mlopes
    Published at May 20th, 2008 at 3:11 pm

    João,

    1) As transacções em bolsa são taxadas e todos os lucros têm de ser declarados;
    2) As entidades finançeiras pagam impostos;
    3) Abrir as portas à imigração: mais ainda? De que forma é que entrando mais gente isso vai resolver seja que problema for?
    4) Acabar com a liberalização dos combustíveis faz exactamente o quê? Manter um preço artificial e por o Estado a suportar os custos (que, ao fim e ao cabo, continuamos a ser nós)? Tirar os lucros às petrolíferas e levá-las à falência? A liberalização dos combustíveis já acontece desde 1986 e não há um único país europeu que não tenha o mercado petrolífero liberalizado.

    Quanto ao plano da Dra Manuela Ferreira Leite, ela irá apresentá-lo caso se torne a candidata do PSD para as eleições legislativas.

    No entanto, dos candidatos de esquerda apenas vemos um mar de críticas, queixumes, mas medidas práticas e realistas que rectifiquem os problemas.. nada. zero.

  14. João
    Published at May 20th, 2008 at 6:08 pm

    As transacções em bolsa são taxadas apenas em irs, a quantidade de benefícios fiscais que as entidades financeiras têm transformam os impostos que pagam em somas irrisórias para os lucros que têm, entrando força produtiva contribui em impostos, sustentação da segurança social e quebra do envelhecimento da população acabando com o problema demográfico. Quanto à liberalização dos combustíveis o mercado energético foi liberalizado em 2003, permitindo as gasolineiras fixar os preços dos combustíveis. Seria de esperar que os preços baixassem com a concorrência, mas obviamente só acredita nisso quem acredita na bondade do mercado e, como tal houve cartelização e quem paga é o consumidor…
    A Shôtora eventualmente apresentará qualquer coisa mas só depois de ter os votos no saco… Aliás só irá ganhar qualquer coisa quanto menos aparecer e quando menos falar. Já tivemos outros exemplos assim.

  15. mlopes
    Published at May 20th, 2008 at 6:46 pm

    João,

    As entidades finançeiras são, a par das petrolíferas, os maiores pagantes ao Estado.

    Essa da emigração aumentar a força produtiva também tem a sua quota parte de lirismo. Pergunta a Espanha o que tem achado da entrada de tantos marroquinos e turcos no país. Portugal já tem uma taxa de desemprego ENORME, com mais emigrantes não iria senão aumentar.

    Quanto ao preço dos combustíveis, o mercado, mesmo que em cartel, tem de se regular pelo preço do crude. E o preço está a $129. Não há qualquer forma de limitar isto senão pondo o Estado dinheiro do bolso, o que vai dar exactamente ao mesmo.

    Enfim, medidas idealistas mas pouco realistas.

    Quanto à “Shôtora”, o objectivo agora é o PSD. O plano de governação é algo completamente diferente e requer outro tipo de esforço que só deverá ser exercido (condignamente, não apenas uns bitaites) caso seja eleita. Certamente que ela tem e terá as ideologias sob as quais rege as suas acções.

    Mas afinal que planos para o país temos da Esquerda? Eu ainda não vi nem li nenhum. Apenas queixume e muito idealismo. Medidas concentras e reais para resolver os problemas: 0.

  16. Grumbler
    Published at June 11th, 2008 at 10:31 am

    Curiosa esta afirmação de atribuir tachos no estado ao PCP e ao BE, partidos que me recordo nunca estiveram no poder (à excepção do PCP no periodo a seguir ao 25 de Abril e apenas como ministros sem pasta) é no mínimo curiosa. Não foi o PS e o PSD quem estiveram no poder alternadamente? Não foram os mesmos que contribuiram para o estado actual das coisas? Ou vais-me dizer que foi o PCP responsável pelo mesmo nas câmaras que possui quando as mesmas nunca corresponderam sequer a 30% do total das câmaras municipais?

    Já agora sobre medidas concretas, veja-se por exemplo a proposta que o PCP apresentou recentemente para taxar os lucros especulativos das gasolineiras como forma de combater o aumento dos combustiveis. Claro que podemos sempre dizer que mais impostos não resolvem o problema, mas se a especulação for taxada aposto que quem está a lucrar com a mesma no nosso país irá pensar duas vezes.