Aborto

Feto humano com 10 semanas
O meu post que sugeria uma pausa para reflexão gerou muito celeuma, pelo que me sinto no dever de me justificar, independentemente da minha facção de voto, tal como todos os que vão votar também se deverão justificar perante uma decisão tão importante.
A minha posição inicial, mal soube que o aborto iria estar em discussão, foi um peremptório SIM. No entanto, após me informar melhor da proposta de lei em referendo, repensei a minha intenção de voto.
Embora nenhuma mulher tenha sido presa devido à prática de aborto (apenas uma foi condenada a 3 meses de prisão, substituível por cima de 120€), existem mulheres que ainda o praticam em condições miseráveis. Há, portanto, o problema dos abortos clandestinos que conduz a graves problemas de saúde ou mesmo à morte.
Na minha óptica, existem duas formas de abordar este problema
- Informar e apoiar a mulher, dando-lhe a ajuda moral e finançeira possível assim como um digno planeamento familiar para que possa ter a criança;
- Abortar
Pelos valores que defendo, sou claramente a favor da primeira hipótese. Analogamente, se há fraude fiscal, vamos todos ter a liberdade de deixar de pagar impostos?
Existem também as questões relativas ao valor jurídico e humano do feto. Às 10 semanas, em que já bate o coração, vamos matar algo só porque sim? Será que já não terminou a nossa liberdade, há muito, para decidir tal coisa? Olhem para a imagem a cima. A mim dá-me vómitos imaginar aquele feto a ser indefesamente eliminado só porque sim.
O que me leva então a votar NÃO?
- Esta será das propostas mais liberais da Europa. A mulher terá livre arbítrio para, sem que ninguém possa impedir, abortar. Não é obrigatório o acompanhamento psiquiátrico para avaliar se a mulher está a pensar com clarividência — apenas conta o seu voto.
- O pai, que esteve lá na concepção, não poder fazer NADA. Eu, enquanto pai, quero ter algo a dizer
- O argumento da humilhação/penalização é fraco, pois a mulher continua a ser condenada às 10 semanas e um dia;
Acho, contudo, que a lei deverá ser alterada, e o NÃO não é um não ortodoxo mas antes um não à LIBERALIZAÇÃO. O que fazer então? Eu sugiro
- Período de 5 semanas: suficiente para tomar a pílula abortiva, fazer testes de gravidez e consultar especialistas; pensar e repensar; pedir conselhos a família; período em que é menos certo, do ponto de vista biológico, que haja vida;
- Consentimento escrito do pai, caso este esteja em condições mentais; em caso de pai comprovadamente ausente, e aí sim, contaria apenas a decisão da mulher
- Decisão sempre validada pelas entidades de saúde para evitar situações de “Ah, foi só para chatear o meu namorado” que existem.
Não esquecer o aborto, actualmente, já está contemplado em três situações
- Violação
- Malformação do feto
- Risco de vida para a mulher




Às 10 semanas, em que já bate o coração, vamos matar algo só porque sim? Será que já não terminou a nossa liberdade, há muito, para decidir tal coisa? Olhem para a imagem a cima. A mim dá-me vómitos imaginar aquele feto a ser indefesamente eliminado só porque sim.
Errr… mas na lei actual sobre certas circunstâncias é possível abortar até às 10 semanas. Vale menos a vida nesses casos ? Nestes anos todos não vi os defensores do “Não” a pedirem a alteração da lei actual.
Carlos,
Há uma grande diferença entre abortar de livre arbítrio e abortar por violação, malformação do feto e perigo de vida da mulher. Numa, a vida é posta em causa de forma leviana. Na outra, a vida é posta em causa por motivos de força maior.
Quanto ao “nunca terem feito nada”, eu sempre defendi a alteração da lei actual, até porque era patético ela existir e não ser aplicada (não quero com isto dizer que as mulheres deveriam ser presas, apenas que as leis são feitas para cumprir!). Mas quem sou eu?
Acho que é a história de sempre: a separação da moralidade e do sofrimento.
Se definirmos “moral” como aquilo que reduz o sofrimento, então a despenalização do aborto é obviamente moral: reduz o sofrimento das mães, e não condena crianças “obrigadas a nascer” (por um Estado que não tem, nem devia ter, nada a ver com isso) a vidas de sofrimento.
O problema é quando alteramos a definição de “moralidade”. É aqui o caso: quem é anti-aborto sob qualquer circunstância não tem problemas em condenar milhões de pessoas a vidas de sofrimento. Vêem-se como “defensores da vida”, e isso fá-los sentir-se muito bem. :( É o que dá deixar-se dominar pelas emoções, e não pensar nas coisas…
O que é que define um ser humano? Se se é religioso, é algo indetectável e indefinível chamado “alma”. Não é o meu caso, obviamente. Então o que será? Eu acho que é o cérebro. Um feto ainda não tem o cérebro formado. É um ser vivo? Sem dúvida… afinal, todas as células do corpo estão vidas, e inúmeras morrem e nascem todos os dias. Mas é um ser humano? Eu acredito que não o é, ainda… mas, mesmo que isso possa ser discutível, o que não é discutível é que a mãe o é… e é, também, dona do seu corpo.
De qualquer forma, para mim a questão do sofrimento é a mais importante. Todas as evoluções da moralidade ao longo da história (des-legalização (não necessariamente legalização, mas essas coisas eram parte da lei, em tempos) do racismo, da escravatura, da tortura, da inquisição religiosa, das mulheres como propriedade — algumas das quais ainda estão por acontecer em países muçulmanos) aconteceram porque as pessoas, com o tempo, perceberam que uma moralidade abstracta e arbitrária não justificava o sofrimento injusto e cruel de milhões.
O aborto é apenas mais um caso como esses.
A palavra a seguir a “necessariamente” devia ser “ilegalização”, obviamente. Sorry.
O problema é quando alteramos a definição de “moralidade”. É aqui o caso: quem é anti-aborto sob qualquer circunstância não tem problemas em condenar milhões de pessoas a vidas de sofrimento. Vêem-se como “defensores da vida”, e isso fá-los sentir-se muito bem. :( É o que dá deixar-se dominar pelas emoções, e não pensar nas coisas…
Argumento totalmente falacioso. Quantos filhos foram desejados e têm uma vida miserável? Quantos filhos NÃO foram desejados e têm uma vida impecável?
Essa do “fá-los sentir bem” é triste e não esperava isso de ti Pedro. Era o equivalente a chamar-te assassino por defenderes o aborto de livre vontade. E, claro, baseia-se num argumento totalmente falacioso que nem sequer deveria ser evocado.
O que é que define um ser humano? Se se é religioso, é algo indetectável e indefinível chamado “alma”. Não é o meu caso, obviamente. Então o que será? Eu acho que é o cérebro. Um feto ainda não tem o cérebro formado. É um ser vivo? Sem dúvida… afinal, todas as células do corpo estão vidas, e inúmeras morrem e nascem todos os dias. Mas é um ser humano? Eu acredito que não o é, ainda… mas, mesmo que isso possa ser discutível, o que não é discutível é que a mãe o é… e é, também, dona do seu corpo.
Obviamente que não há nada objectivo e definitivo neste sentido. A mim custa-me ver aquele feto a ser morto por livre arbítrio, porque aquela mulher acordou e lhe apeteceu.
De qualquer forma, para mim a questão do sofrimento é a mais importante.
Estamos ambos totalmente de acordo. Ninguém deseja o sofrimento. E, como referi, a solução, na minha óptica, passa por facultar o Estado com mecanismos que salvaguardem as condições da mãe para criar o filho. É para isto que eu pago impostos, não para assassinos.
500€/aborto eram bem melhor aplicados a pagar a vacina contra o cancro do cólo do útero. Mas pronto, se o SIM ganhar a clínica de Badajoz já pode terminar as obras em Lisboa para cobrar esses 500€/aborto para ceifar uma vida.
“Informar e apoiar a mulher, dando-lhe a ajuda moral e finançeira possível assim como um digno planeamento familiar para que possa ter a criança;”
O lado do não usa muito este argumento, mas isto não pode ser feito também após a despenalização? E quem usa este argumento como moeda de troca “votem não que nós vamos trabalhar para isto”, o que andou a fazer até hoje?
Isto nunca foi feito, nem mesmo pelas “entidades” que agora tão convictamente dizem não, e que claramente têm os recursos para tal, nomeadamente a igreja católica (cujo dinheiro parece só servir para construir catedrais em fátima e novas igrejas um pouco por toda a parte).
É como quem promete, e logo a seguir quebra a promessa.
Carlos,
Foram criadas 14 associações de apoio à vida, financiadas pelo Estado. Se o SIM ganhar o Estado irá deixar de financiar estas instituições. Isto já foi prorrogado.
Quanto ao apoio ser feito depois da despenalização, é óbvio que sim. Mas isso não impede os abortos por livre arbítrio, só porque sim, e não impede o desprezo pela opinião do pai.
Quanto a alterações, reitero a necessidade de serem feitas. Eu pouco posso fazer, não é a minha área, e em 1998 nem era maior de idade. Mas apoio claramente uma alteração, como propus. Passar da penalização à liberalização parece uma revolução anárquica.
Livre arbítrio não é caos e anarquia…
Eu sou livre de pedir ao meu dentista para me tratar as cáries a frio, se calhar até poupava no custo da consulta, mas faço-o? Não! Só se fosse masoquista…
Da mesma forma, as mulheres não vão abortar só porque lhes apetece, tal como não deixam de abortar só porque é proibido… É ridículo pensar o contrário…
Ajudar é uma treta. É como fazer caridade, é uma forma de controlo. Ajuda-se quem e como? E se as razões não são económicas?
Ninguém é a favor do aborto, mas está claro que não o podemos impedir. O mínimo que a sociedade pode fazer é dar as condições necessárias para que apenas se perca uma vida(*) e não duas.
(*)Vida sim, mas não gente. Se considerarmos que uma vida ainda sem as faculdades que definem um humano deve ser defendida no mesmo plano, então teremos de defender também a vida dos animais nesse mesmo plano. Mas não estou a ver o Papa a abdicar dos estofos de pele no seu mercedes…
Mário: aí, não me estava a referir a ti. Mas é um facto que já tenho visto muitos partidários do “não” usar esse argumento: “eu estou a proteger vidas humanas, e nada mais me interessa; estou-me a c*gar para todos os outros argumentos.
Da mesma forma, as mulheres não vão abortar só porque lhes apetece
Isso acontece e posso-te dar um contacto de uma médica no meu centro de saúde que assistiu a uma rapariga de 24 anos que pediu assistência na gravidez, alegando que tinha feito um aborto há 4 meses atrás mas que este queria levar adiante. Quando questionada sobre os motivos do aborto disse que “estava chateada com o meu namorado e era para o irritar”.
Isto EXISTE e é REAL. Mulheres que abortam só porque sim. E é ilegal e caro.. imagina se não fosse.
Pedro,
“eu estou a proteger vidas humanas, e nada mais me interessa; estou-me a c*gar para todos os outros argumentos.
O não ortodoxo, como o sim anárquico, são extremos e como qualquer extremo não são para serem tidos em conta.
Olá,
Ignoremos o facto de que só se é feto a partir da décima semana, e falemos de números: nos EUA, onde é possível abortar de uma forma tão simples como “Quer? Sim ou não?” até às 24 semanas. Os resultados são visíveis: há virtualmente ZERO mortes nas IVG’s.
Um NÃO neste referendo significa manter a situação actual, onde quem quer acaba por fazer, quem pode faz lá fora com meios, e quem não pode faz sem meios onde correm um risco bastante significativo de morrerem os dois.
Portanto se o argumento do NÃO é proteger a vida humana, então deviam rever a vossa lógica, pois antes morrer 1 que morrerem 2.
E isso não é um extremo?
E criminalizar o aborto por causa de cretinas mimadas como essa gaja não é o equivalente a proibir a venda de talheres em supermercados, porque podem ser usados para matar pessoas?
E criminalizar o aborto por causa de cretinas mimadas como essa gaja não é o equivalente a proibir a venda de talheres em supermercados, porque podem ser usados para matar pessoas?
É o equivalente a ser contra a pena de morte simplesmente porque um inocente morreu. Se existe uma cretina dessas, é razão suficiente para eu votar não, idem aspas para a pena de morte, que também sou contra.
nos EUA, onde é possível abortar de uma forma tão simples como “Quer? Sim ou não?” até às 24 semanas. Os resultados são visíveis: há virtualmente ZERO mortes nas IVG’s.
Já referi que a abordagem não passa por praticar o IVG mas antes evitar que haja necessidade do mesmo. Os americanos, como quase tudo, são selvagens e extremistas. Não são um bom exemplo, não obstante a fantástica tecnologia com que eles ceifam vidas.
Um NÃO neste referendo significa manter a situação actua
Para mim, não. Só significa isso se o PS assim o desejar. Eles podiam perfeitamente ter proposto algo mais equilibrado e menos liberal, em que se aborta como se vai ao café.
Portanto se o argumento do NÃO é proteger a vida humana, então deviam rever a vossa lógica, pois antes morrer 1 que morrerem 2.
Esse argumento é tão falacioso que Rui, desculpa-me, não vou sequer responder.
“Isso acontece e posso-te dar um contacto de uma médica no meu centro de saúde que(…)”
Eu também te posso dar o contacto de um tipo que conhece um gajo que foi drogado por uma tipa e depois acordou numa banheira cheia de gelo com um rim em falta.
Factos em segunda mão toda a gente tem, e isso não os torna mais verdade.
Mas mesmo acreditando em ti, e acreditando em quem te comunicou esse facto, ainda falta acreditar em quem proferiu essas palavras. As pessoas dizem muita coisa, e muitas vezes preferem dizer barbaridades dessas a dizer as razões reais.
Mas mesmo assim… o aborto é proibido e isso não a impediu minimamente. Estás a ver onde quero chegar?
Desculpa, mas acho que a comparação que fiz dos talheres é apropriada. Algo PODE ser usado para fazer mal (mesmo que não seja, normalmente, o caso), logo proíbe-se? É essa a tua lógica?
Portanto, essa cretina é tão importante que, só para a lixar, não tens problemas em contribuir para condenar sei lá quantas pessoas inocentes (tanto mães como filhos “obrigados a nascer”) a vidas de sofrimento?
Uma gaja como essa devia, até, ser OBRIGADA a abortar, já que provou não ter qualquer tipo de maturidade ou capacidade para ser mãe. Achas que, se ela for obrigada a ter o filho, este terá uma vida decente e sã? Bolas, não só devia abortar, como devia ser esterilizada, ou algo parecido! Ninguém merece sofrer por causa de tanta idiotice!
Além de que, como disse o Carlos, o facto de o aborto ser ilegal não a impediu…
… mas faz com que muitas tenham de ir a Espanha, ou tenham de o fazer às escondidas, sob risco de vida e de ser presas.
“Liberal” agora é um palavrão, como nos EUA? Sempre pensei que vinha de “liberdade”, algo em geral desejável (usando a definição de “liberdade” como “poder decidir o que nos afecta primariamente a nós” - o que é o caso do aborto)…
Carlos,
As pessoas dizem muita coisa, e muitas vezes preferem dizer barbaridades dessas a dizer as razões reais.
Podes ignorar a realidade ou achar que são apenas barbaridades, sendo tudo rosas e mães responsáveis e conscientes,. Eu sei, em primeira mão (a médica é amiga de família) do caso. Acredito na pessoa logo acredito na sua palavra que lidou com o caso.
Mas mesmo assim… o aborto é proibido e isso não a impediu minimamente. Estás a ver onde quero chegar?
Sim. Se é ilegal e ainda assim as pessoas fazem coisas como as que citei, imagina se fosse legal..
Pedro,
Portanto, essa cretina é tão importante que, só para a lixar, não tens problemas em contribuir para condenar sei lá quantas pessoas inocentes (tanto mães como filhos “obrigados a nascer”) a vidas de sofrimento?
Esse argumento é falacioso e já te provei isso.
Achas que, se ela for obrigada a ter o filho, este terá uma vida decente e sã?
Sabes se vai ou não? Uma mãe tinha já 8 filhos, três eram deficientes, dois eram cegos, um era mentalmente retardado e ela tinha sífilis. Será que deveria abortar? Será que tinha condições para criar o filho ou será que ele iria viver em sofrimento, pois é pouco provável que vá ter uma vida saudável e sã?
Bom, se respondeste sim, terias morto Ludwig van Bethooven.
“Liberal” agora é um palavrão, como nos EUA? Sempre pensei que vinha de “liberdade”, algo em geral desejável (usando a definição de “liberdade” como “poder decidir o que nos afecta primariamente a nós” - o que é o caso do aborto)…
Liberal é muito ambíguo. Liberdade também pode ser bom (a nossa liberdade TERMINA quando começa a dos outros), como péssimo (anarquia, neo-liberalismo).
A questão do aborto às 10 semanas vai claramente contra o moto, que eu defendo impetrivelmente, que a nossa liberdade termina quando começa a dos outros. Por outro lado, a nossa liberdade também termina quando existe um pai que tem tanto direito a escolher a vida do filho como a mãe.
Isso dizes tu. Eu acho selvagem e extremista um país onde podes ficar em prisão preventiva sem nem acusação ter 2 anos.
Acho selvagem e extremista que “para não morrer 1″ morram 2.
Sim, é Portugal.
Acho selvagem e extremista que “para não morrer 1″ morram 2.
Desculpa Rui, mas este é o argumento mais falacioso de todo este debate.
Esse argumento — apelar às consequências é também falacioso: por essa lógica, a mãe do Hitler cometeu um crime contra a humanidade por não ter abortado…
Ou, pondo a coisa de outra forma: se a questão é o facto de eventualmente nascer (ou não) um ser humano, então, eu e a minha namorada, por usarmos contraceptivos, já “matámos” vários seres humanos…
Aliás, nem é preciso incluir contraceptivos na questão. Se só interessa o resultado, então, sempre que uma mulher pode tecnicamente engravidar e não o faz, está a impedir um ser humano — quem sabe um possível Beethoven — de nascer. Logo, uma rapariga deveria engravidar logo que possa, fisicamente, ter filhos, e continuar a produzi-los em massa.
Exagero? Sem dúvida. Desconversar? Não, apenas estou a levar o argumento de “o que interessa é o resultado” ao limite.
A sério, acho que definir o início da vida humana na concepção é tão arbitrário como, sei lá, defini-lo, citando o Blackadder, no “brilho nos olhos do leiteiro”. :) Afinal, mesmo aí já há um potencial ser humano…
Outra questão: durante meses, aquilo é um aglomerado de células. E, afinal, é frequente haver abortos expontâneos, muitas vezes sem que a mulher sequer tenha conhecimento. Há também “assassínio de bebés” nesses casos?
Tens razão Pedro, o argumento pode ser efectivamente falacioso se o inverteres. Eu não sou extremista nem sou um não ortodoxo que vê o acto de concepção como uma vida. Até certo momento são apenas células indiferenciadas, como as da pele. No entanto, nas dez semanas já bate um coração. Daí que no meu post tenha uma proposta de 5 semanas que me parece mais equilibrada, mas sempre com acompanhento obrigatório.
Quanto ao caso dos abortos espontâneos, isso é uma não questão. Acontece e pronto, é a lei da Natureza.
Há duas coisas que me parece importante realçar.
Retiro do post:
Na minha óptica, existem duas formas de abordar este problema
1. Informar e apoiar a mulher, dando-lhe a ajuda moral e finançeira possível assim como um digno planeamento familiar para que possa ter a criança;
2. Abortar
O voto no SIM não implica que a primeira opção deixe de existir! É fundamental perceber isto!
As informações, o apoio, até mesmo as acções de dissuação do aborto podem perfeitamente continuar a existir se o SIM ganhar. O argumento da vida - ou qualquer outro - pode continuar (e continuará) a existir se o SIM ganhar. O único argumento que cai é o do “abortar é crime”.
Retiro do último comentário:
Daí que no meu post tenha uma proposta de 5 semanas que me parece mais equilibrada, mas sempre com acompanhento obrigatório.
A obrigatoriedade do acompanhamento não é posta em causa pelo referendo. O referendo é para questões essenciais. As questões processuais - como a existência de acompanhamento médico e psicológico e a apresentação de alternativas ao aborto - não são contempladas, mas podem vir a existir. E, com imensa dose de probabilidade (porque o mais elementar bom senso assim o dita) serão implementadas pelo legislador.
Em suma, não se vota neste referento, de forma alguma, entre o acompanhameto e a existência de alternativas, por um lado, e o aborto, por outro. O que se vota é que do outro lado desse acompanhamento e dessas alternativas possa estar uma opção que não seja criminosa.
Ou, pondo a coisa de outra forma: se a questão é o facto de eventualmente nascer (ou não) um ser humano, então, eu e a minha namorada, por usarmos contraceptivos, já “matámos” vários seres humanos…
Esta partiu-me todo… nao tiveste aulas de biologia na escola foi?
Pensava eu que os contraceptivos eram exactamente para nao existir fecundacao.. ou seja… sem fecundacao nao ha feto pa ninguem… nao ha feto, logo nao ha morte ou aborto…
Agora a serio… eu nao voto neste referendo, por isso ainda nao perdi muito tempo a reflectir sobre o assunto e evito entrar em discussoes sobre isso.
Vítor, não percebeste a ideia. Essa parte era a resposta à questão de nascer ou não um novo ser humano (que podia, por exemplo, vir a ser um Beethoven). É um dos argumentos de quem vota “não” (impede-se o nascimento de seres humanos que podem vir a mudar o mundo), e não tem nada a ver com a morte do feto. O meu argumento, simplesmente, levava isso ao limite: se estamos a falar de potenciais seres humanos, então esse conceito existe muito antes da gravidez…
Daí que no meu post tenha uma proposta de 5 semanas que me parece mais equilibrada, mas sempre com acompanhento obrigatório.
Um aparte: Quantas mulheres sabem às 5 semanas que estão grávidas ?
Continuo a não perceber como se pode discutir “moralidade” numa questão meramente legal: Hoje em dia é crime o aborto, no entanto niguém é condenado, ninguém é denunciado, e muitas das mulheres que o fazem acabam por morrer ou sofrer graves sequelas do acto.
Mário, se uma irmã/prima/amiga tua abortasse ias denunciá-la ?
Se a tua resposta é não, então a tua posição do “Não” é incoerente.
Note-se que o “sim” não obriga ninguém a abortar, ao contrário do que a campanha do “não” quer dar a entender. E ninguém deixa de abortar porque é ilegal.
@Pedro: acho que a questao de so’ existir um ser da especie humana apenas depois da fecundacao e’ uma coisa mais ou menos concordada cientificamente. O que existe muita discussao e’ a partir de quantos dias/semanas/meses e’ que nos passamos a considerar esse ser algo como nos, e’ que ja varia de pessoas pa pessoas.
Mas, por favor, leva a minha resposta na desportiva… eu estava ler muito atento a vossa discussao mas ao fim de alguns posts voces chegaram aos extremos e, como tal, ja os dois diziam algumas coisas com pouco sentido (como considerei aquela, e achei algma piada pela extremidade absoluta :))
Vítor: eu não discuto isso! Mais uma vez, acho que há aqui uma confusão, porque não me entendeste bem.
Uma coisa é se ao abortar se está a “matar” um ser humano ou não. Essa é uma questão que abordei noutros comentários.
Outra questão é se ao abortar se está a impedir alguém de nascer, alguém que poderia ser um grande génio que faça algo significativo pela humanidade. Não entra, aí, a questão de “matar seres humanos”, obviamente. Mas esse é um argumento que muitos partidários do “não” também usam (se a mãe de X tivesse abortado, X nunca teria nascido), e era esse argumento que eu estava a criticar, levando ao limite.
| Argumento totalmente falacioso. Quantos filhos foram desejados e têm uma vida miserável? Quantos filhos NÃO foram desejados e têm uma vida impecável?
Ehem… o problema não é nenhum desses. Eu conheço filhos não desejados e estão finos (1a, na verdade), também conheço filhos desejados que não estão nada finos, mas creio que é irrisório compara com a quantidade de filhos não desejados que levam uma vida, no mínimo, indesejável. E **esses** são, por norma, filhos de pessoas que não têm as posses para ir a espanha. **Essas pessoas** é que são verdadeiramente afectadas pelo não. E essas pessoas estão a dar à luz os gunas que vão assaltar os vossos filhos. =P Ok, talvez não gunas, mas parece-me que eles terão muito melhores condições para se tornarem pessoas indesejadas pela sociedade.
| E criminalizar o aborto por causa de cretinas mimadas como essa gaja não é o equivalente a proibir a venda de talheres em supermercados, porque podem ser usados para matar pessoas?
| Se existe uma cretina dessas, é razão suficiente para eu votar não
Ainda não te vi (e espero não ver), nem à igreja, nem aos “talibans” do não nem a proibir vender talheres. Nem arames escava-úteros.
| Ou, pondo a coisa de outra forma: se a questão é o facto de eventualmente nascer (ou não) um ser humano, então, eu e a minha namorada, por usarmos contraceptivos, já “matámos” vários seres humanos…
Completamente apoiado. Se abusarmos da biologia, acho que a diferença entre matar um macaco ou um pessoa com menos de ano e meio de vida é o mesmo. Isto tendo em conta que ambos apresenta exactamente as mesma faculdade fisícas e psíquicas.
Acho que a questão de estar a ver ao segundo quando começa a vida é irrelevante. Repare-se que um humano só o “é genuinamente” o encaramos como tal. Escolher entre a masturbação ou o aborto para arma do crime é puramente descargo de consciência. A questão é só “Queres impedir uma vida de acontecer ou não?”.
| As questões processuais - - não são contempladas, mas podem vir a existir.
Eu não vou votar num talvez. Acho que isso é compreensivel.
Mais, quem se acha muito defensor da vida podia (há quem diga devia), para reforçar a posição, fazer uma tomada de posição também contra as touradas (e outras atividades anti-vida afins). Eu até “nem des-curto” touradas mas, sei que aquilo é uma barbaridade tão grando como fazer um aborto esperando que o filho saia da mãe, espanca-lo e gritar “OLÉ, bitch!”. Se acham isso feio, votem não primeiro às touradas que não são só anti vida, mas como gozanda e fazem festa da falta dela.
oi concordo com todos os teus pontos, especicalmente aquele em que apesar de nos tb sermos responsaveis pela criança, não temos direito a opinar sobre o seu (”homicidio) eu sei ke é uma palavra forte, mas não me lembro de outra…
ja agora, citei o teu post com os devido creditos, pois representava a minha opinião..
http://joaovitmouforumaborto.blogspot.com/
espero ke não te importes, se te importares diz algo ke eu removo…
fiquem bem
André,
Podes usar perfeitamente. Aliás, para fazeres um link para um endereço na web (seja este um site ou um blog) não precisas de pedir informação ao seu autor. :-)
Olá de novo Mario.
Vais-me desculpar, mas parece-me que estás a precisar de falar mais com muheres..
Repara, se os motivos que apresentas são o que realmente te leva a votar “Não”, permite-me que te coloque então as seguintes questões:
1) Ninguém poderá impedir o livre-arbítrio da mulher em abortar, seja por que motivo for;
Quer-me parecer que uma mulher não aborta porque lhe apetece ou está para ai virada. Se existem mulheres assim, não é a legalização que as vai impedir, talvez até as possa levar a ter tratamento psicológico. TODA a gente sabe onde ir para fazer um aborto ilegal ou legal (Espanha, Italia, Inglaterra…).
Quanto ao “livre arbitrio da mulher”… Pessoalmente não tenho problemas com isso. Queres que seja eu (ou outro qualquer) a decidir o que a tua mulher faz com o ventre dela?? Não me parece.
Agora (mais) a sério, o que é que tu pensas das mulheres? És daqueles que pensas que são umas pobres coitadas que não podem ser deixadas sozinhas? Que não sabem o que é melhor para si, e que portanto dependem de nós homens valentes para tomar decisões por elas?
2) O pai não conta na decisão
Este argumento parece-me mais uma vez uma tentativa desesperada de tentar controlar o que a mulher pode ou não pode fazer.
Repara, se entendermos que a gravidez se deu de comum acordo, então o pai foi consultado. Há um projecto e terá sido pensado e realizado a dois. A decisão de abortar também será tomada a dois.
Num caso em que uma mulher decida abortar, e repara que isso acontece HOJE, sem “consentimento” ou sequer conhecimento do pai, então pode ser o fim não de um mas de dois projectos. O filho que não nasce e a relação que está morta.
Permite-me que te pergunte se achas mais aceitável que, por exemplo, uma mulher decida ficar gravida e levar até ao fim essa gravidez contra a decisão do pai. O que tinhas a dizer a este respeito?
Então (e este texto já vai muito longo) se o pai decidir que quer que a mulher aborte?
Um coração bate ás 10 semanas? Sim, e as 24 (prazo dado nos EUA)?
Sabes que é a actividade cerebral coordenada que define o ser humano, certo? Talvez te ajude saber que ás 10 semanas, a estrutura nervosa necessária para a existência dessa actividade ainda não existe.
Quer-me parecer que uma mulher não aborta porque lhe apetece ou está para ai virada
Falso, isto acontece. E se acontece com o aborto ilegal, vai acontecer ao quadrado com o aborto liberalizado. É o que se passa nos outros países, embora muita gente queira fechar os olhos dizendo que dantes é que se contavam mal os abortos clandestinos.
Agora (mais) a sério, o que é que tu pensas das mulheres? És daqueles que pensas que são umas pobres coitadas que não podem ser deixadas sozinhas? Que não sabem o que é melhor para si, e que portanto dependem de nós homens valentes para tomar decisões por elas?
Se fossem os homens a engravidar eu acharia precisamente o mesmo, ou talvez ainda pior. Se calhar até sugeriria que houvesse um controlo maior.
Portanto, a questão não é ser mulher ou homem, macho ou fêmea. Trata-se de uma pessoa numa situação muito delicada que necessita de sério acompanhamento psiquiátrico e que não pode ter acesso a algo tão nocivo como um aborto sem qualquer mediação.
Repara, se entendermos que a gravidez se deu de comum acordo, então o pai foi consultado. Há um projecto e terá sido pensado e realizado a dois. A decisão de abortar também será tomada a dois.
Isso é tão utópico como o comunismo. Da mesma forma que a concepção nem sempre é planeada, também não o é e não será o aborto. O aborto é sempre uma medida de desespero que muita gente cai na tentação. E não é legal.. imagina se o fosse!
Permite-me que te pergunte se achas mais aceitável que, por exemplo, uma mulher decida ficar gravida e levar até ao fim essa gravidez contra a decisão do pai. O que tinhas a dizer a este respeito?
Acho que qualquer dos casais tem todo o direito em pedir a VIDA do filho. Já o oposto, a MORTE, é algo que eu vejo com muita relutância.
Então (e este texto já vai muito longo) se o pai decidir que quer que a mulher aborte?
É uma opinião tão válida quanto a da mulher. Se a mulher desejar continuar com a gravidez, então deverá fazê-lo. A vida em detrimento da morte, sempre.
Um coração bate ás 10 semanas? Sim, e as 24 (prazo dado nos EUA)?
O caso dos EUA foi um exploit da lei americana por duas advogadas que representavam uma mulher que mentiu dizendo que tinha sido divulgada. Essa mesma mulher percorre agora o mundo em defesa da vida e totalmente contra o aborto.
Sabes que é a actividade cerebral coordenada que define o ser humano, certo? Talvez te ajude saber que ás 10 semanas, a estrutura nervosa necessária para a existência dessa actividade ainda não existe.
Isto é um tema totalmente discutível. O sistema nervoso já está em parte formado às 10 semanas embora não possa ser usado. Um coração já bate, o cérebro está em desenvolvimento e já se começaram a formar todos os orgãos. Tenho a certeza que se ninguém intervir sairá dali um bébé.
Em primeiro lugar quero pedir desculpa pelo “spam” que fiz sem querer ontem. Devia ter feito um refresh…
Continuando a argumentação:
“Tenho a certeza que se ninguém intervir sairá dali um bébé.”
Futurologia pura. Não sabes nem podes saber isso.
“A vida em detrimento da morte, sempre.”
Mesmo que essa vida prejudique outras?
Então e no caso de violação?
E no caso de má formação do feto?
E no caso da mulher precisar de tomar medicação que poderá afectar o desenvolvimento do feto? (esta ultima é uma trick question, porque não está prevista na actual lei, assim como a quimioterapia por exemplo…)
“Um coração já bate,”
O coração é um musculo. Não sejamos romanticos quando se fala de assuntos tão sérios.
Agora 2 pontos em relação á lei actual que, assim de repente, são dos principais motivos para votar sim.
1) o aborto é crime publico. Logo, se eu fizer uma queixa anonima sobre, digamos, a mãe de um tipo que eu não grame mesmo nada, a policia fará a investigação e a mulher será vitima de um exame médico invasivo cujos detalhes deixo á tua imaginação.
2) Bastava mudar uma palavra na lei portuguesa para ser (virtualmente) igual á espanhola.
Entre as causas que hoje permitem que a mulher faça a IVG está o perigo para a saude fisica ou mental _PERMANTENTE_ da mulher. Ora… poucos psicologos estão perparados para assinar por baixo de um documento que faz futurologia.
A mulher pode sofrer danos psicologicos graves se fôr obrigada a levar em diante uma gravidez indesejada, mas só “deus” saberá se são permanentes.
Futurologia pura. Não sabes nem podes saber isso.
History repeating. Se estamos cá hoje os dois foi porque ninguém interviu.
Mesmo que essa vida prejudique outras?
Então e no caso de violação?
E no caso de má formação do feto?
E no caso da mulher precisar de tomar medicação que poderá afectar o desenvolvimento do feto? (esta ultima é uma trick question, porque não está prevista na actual lei, assim como a quimioterapia por exemplo…)
Somos pessoas moderadas e equilibradas. Essas situações exceptionais fazem pender a balança e certamente que deverão sempre ser tidas em conta.
O que não deve ser tido em conta é a liberalização desta prática sem qualquer razão forte e justificativa. Só porque sim, não é solução.
A mulher pode sofrer danos psicologicos graves se fôr obrigada a levar em diante uma gravidez
Certamente que sim, mas os casos próximos que conheço são os opostos. Fizeram um aborto (com condições em Espanha) e nunca mais recuperaram. E não, não foi porque a Sociedade as recrimina. Foi porque um dia deixaram que elas abortassem logo que pediram.
Essas mulheres são hoje fortes partidárias do não. Devia-se tomar mais em atenção as mulheres que abortaram.
Oi Mario,
Esta conversa está interessante, mas desta vez escolhi responder no meu blog, onde está convidado a responder (ou não), essencialmente porque ultimamente escrevo mais neste thread do que no meu próprio blog.
Espero que aceites o convite.
http://open-mind-open-opinion.blogspot.com/2007/02/post-em-continuaao-da-conversa-com.html