A arte de conduzir no Porto
Talvez tenha sido um pouco incerto. O título correcto seria “Como sobreviver a conduzir no Porto”.
Agora o enquadramento. Toda a gente sabe que o povo latino é tipicamente enérgico a conduzir (e já estou a usar um eufemismo, mas enfim..). Italianos, Espanhóis e Portugueses têm traços bem comuns no que respeita à condução (e noutros aspectos também, que saiem fora do âmbito deste post). Basicamente, a condução é péssima devido, essencialmente, à falta de civismo, respeito, educação e conssonância com as regras de trânsito.
Mas tudo é pior quando se trata do Porto. Como honrado portuense não posso deixar de apontar este grave defeito aos habitantes da minha cidade. Preto no branco, conduzimos mal e porcamente.
Para quem passar por aqui, ficam algumas regras básicas sobre a condução no Porto (e podemos também inferir para Portugal):
- No que toca à sinalização da viatura, somos comunistas; seja Fiat Punto ou Mercedes Classe S os carros vêm todos sem pisca. Esta situação é particularmente visível quando a manobra em causa pode causar um acidente. Nesse caso, então as probabilidades de existir um pisca reduzem-se em 99%;
- A faixa da esquerda tem mel; portanto, ou são abelhas e também o procuram ou então a solução será calmamente, respeitando o código da estrada, circular pela faixa da direita. Se alguém vos chamar de aberração não se admire. Não vai pela faixa da esquerda, não é homem (ou mulher).
- Mulheres não dão prioridade. Nunca. E quando nós lhes damos prioridade, não esperem um agradecimento. Cá levantar o braço e estender a mão custa dinheiro.
- Cuidado com quem prostestam e apitam. Já tive um taxista a querer bater-me por ter recusado subir o passeio com o carro para evitar a fila de trânsito.
Por fim, deixo-vos com o último episódio desta saga de 3 anos de conduzir no Porto. Este episódio motivou este mesmo post (pelo que aproveito e envio as minhas saudações ao interveniente desta história).
Estava a chegar a casa e, aquando de uma curva, reparo que um indivíduo estava a fazer marcha atrás. Calmamente travei e esperei que ele terminasse a manobra. Infelizmente, por motivos que me são alheios, suspeito que o individuo não me tenha visto e quase que me batia. Antes que isso acontecesse tive o reflexo condicionado de apitar ligeiramente. O individuo começa então a esticar veemente o braço. Não fosse eu um veterano na arte de conduzir no Porto, não saberia que ia haver confusão. Evitei, portanto, reagir e aguardei que ele avançasse. Claro que, por muito indiferente que seja, estas situações causam-me algum desconforto pelo que me ri e passei a mão na cara. Nesse preciso momento, o indivíduo para o carro, abre a porta e começa a gritar:
- “O senhor está muito nervoso não está?”
Ao que eu respondo amistosamente
- “Amigo, eu só lhe buzinei para que não me batesse. Só isso”
Rapidamente e claramente ofendido, o indivíduo aclama
- “Não se preocupe pá, se eu batesse eu pagava” (a interjeição do “pá” contrasta claramente com o “Senhor” inicial)
Ao que eu aleguei
- “Lamento caro amigo mas não tenho tempo para isso. Daí ter apitado”
Finalmente, o individuo exclama
- “Eu sei qual é o seu problema…”
e vai-se embora. Fim.




Só para dizer que em Lisboa é exactamente a mesma coisa. Deixa-me só acrescentar uma nota sobre o estacionamento selvagem que ocorre cá por estas bandas: quando levei com um carro em cima aqui há uns anos o acidente ocorreu porque estava uma carrinha estacionada em cima do cruzamento (quando digo em cima, quero dizer que a parte de dentro já estava *no* cruzamento) logo nem eu vi o carro que lá vinha pela esquerda e muito menos ele me viu a mim.
Quando perguntámos ao polícia se ele não ia fazer nada sobre aquela situação ele respondeu “Oiça, posso multá-lo, mas tenho de multar todos estes carros que aqui estão mal estacionados. E quando eles não pagarem as multas, vão-me pedir justificações para ter passado tantas multas e ninguém as pagar”. Acho que está tudo dito…
boas,
vivendo eu no centro da cidade e tendo de me deslocar frequentemente de carro, também eu sei o que é o inferno conduzir na nossa invicta. mas não me parece que tudo seja uma consequência da nossa cultura, atitude, educação (ou falta dela…) ou outros factores intrínsecos à nossa sociedade.
em minha opinião, uma boa parte da confusão que é conduzir no Porto, deve-se à má gestão de meios e estruturas e a estratégias nada lógicas que a divisão de trânsito da camara teima em aplicar.
1) quantos conjuntos de semáforos, em percursos óbvios, conhecidos e utilizados por uma larga percentagem de condutores, estão ligados e sincronizados? quantos de nós já demoraram 5/10mins para fazer a Av. da Boavista - nos bons dias - e mais de 20mins naqueles em que apanhamos os vermelhos todos?
2) quantos arruamentos, de predominância comercial/empresarial, têm locais de carga e descarga disponíveis para facilitar o trabalho dos agentes económicos e evitar o parqueamento em segunda fila? porque razão a Camara não abre mão de uns poucos parquímetros?
3) porque razão, em tantas ruas, a sinalização horizontal não reflete o uso que é dado à via, teimando a Camara em impor regras impossíveis de cumprir, tais como colocar três faixas onde só cabem duas? ou outras situações, em que para o sentido que é mais utilizado só é atribuída uma faixa e as outras permanecem vazias durante todo o dia?
tudo isto contribui para uma irritação acima do normal… e não me admira nada que os portuenses tenham pouca paciência para conduzir na sua cidade.
Eu não tenho muita experiência de condução no porto, só fui aí (como condutor) uma meia dúzia de vezes, mas deu para reparar que é um inferno. A entrada via Braga é um suicídio, em hora de ponta. São 5 faixas, cada um vai pela que lhe dá na gana, e é rezar até sairmos dali sem um único arranhão …
Mas tipo, isso da má educação e afins acontece em todo o lado. Até aqui na pacata cidade da Covilhã é um inferno. Pensam todos que têm capacidades inatas para a fórmula1, e pior, pensam que estão a participar num grande prémio, de cada vez que pegam num carro. Os outros que se desviem :)
Hehe, nice post!
Vou para o porto quase todos os dias, e vindo de todos os lados possíveis e imaginarios! Acho que ainda nao houve nenhuma saida de autoestrada que ainda nao tenha experimentado :)
Tens muita razao no que escreves, ha realmente algo de muito estranho hoje em dia. Tive tambem alguns experiencias engraçadas com estacionamentos!
No ano passado fui de carro para a alemanha, que mundo diferente! Os carros quase que paravam na autoestrada só para me deixar mudar de faixa quando eu dava o pisca! Aqui lutam para ver se perco a saída :P
Nuno,
Conduzi este Verão cerca de 1300km pela Alemanha, de Frankfurt a Berlim (num Golf 1.4.. que charuto!). É impressionante o respeito e o civismo de lá. É precisamente aí o grande contraste que existe entre nós (latinos) e eles (nórdicos). Eles dão SEMPRE, mas SEMPRE (sempre!) pisca. Quer estejam sozinhos na auto estrada há noite, quer não. E ninguém se cola atrás também. Mantêm uma grande distância de segurança.
Em suma, sinto-me mais seguro lá a 220km/h do que cá a 100km/h.
De facto a falta de civismo dentro das grandes cidades portuguesas (e eu não digo só no Porto ou em Lisboa) é assustadora.
IMHO isto só muda quando as multas quadruplicarem de preço, tivermos 1 policia de trânsito em cada esquina, radares e câmaras em todas as estradas e com aplicação das multas instantaneamente debitadas nas contas bancárias…. mas enquanto isso não acontece vou andando de mota sempre com cuidado com os outros e desrespeitando algumas regras de trânsito para me safar nesta selva.
Just my 0,2 €.
E como eu revi grande parte do meu dia-a-dia neste post…
É inacreditável…
Deixo também aqui uma estória que me ocorreu há uns anos, não no Porto mas em Famalicão e que tem a ver com os (não) piscas: Um conjunto de amigos (onde eu me incluia) tinha combinado ir jantar a Famalicão. Estavam 3 carros diferentes e apenas os passageiros de um deles sabia o caminho para o restaurante. Então, depois de nos juntarmos num local central, iniciamos a viagem para o sagrado local. Passamos em várias rotundas, vários semáforos e muitos cruzamentos. Em nenhum deles o condutor do primeiro carro deu um unico pisca. A custo, lá chegamos todos ao restaurante e, já sentados pergunto eu: “Ouve lá, o teu carro não tem piscas? Se calhar estão fundidos”…
Resposta imediata: “Ah, eu não preciso de piscas. Sou de cá, sei para onde quero ir!!!”
Acabou-se ali a minha argumentação! A partir desse momento, passei a conhecer muitos condutores “locais” que por conhecerem o sitio, não dão pisca!